
I
"Y ahora volvamos al jorobadito para deslindar responsabilidades".
Achar um culpado, o erro, o crime. O autor da calúnia, a face do mal. Arlt arma a cena, aponta o dedo, dispara. Sustenta sua armadilha, fibras de uma linguagem arcaica, mal falada, bufona. O humor, não de riso, mas de uma fina ironia, alfineta aqui e ali uma ferida aberta, como se circundasse a miséria humana, num trabalho de bordea-la com a linguagem, dizendo-a com todas as palavras, como "quien camina así, entre hombres y mujeres, percibiendo los furores que encrespaban sus instintos y los deseos que envaraban sus intenciones, sorprendiendo siempre en las laterales luces de la pupila , en el temblor de los vértices de los labios y en el erizamiento casi invisible de la piel de los párpados, lo que anhelaban, retenían o sufrían. Y jamás estuve más solo que entonces...
De todas as solidões, a que assoma na hora da descoberta do mal é singular. Tomo meu direito ocidental de pensar o mal, embora saiba que ele é tão escorregadio e reversível quanto o bem. Me lembro claramente o assombro e a solidão do engano, da falsidade. E se é bem verdade que a dor é inomeável, mas ainda é a solidão que a prossegue. Assim estão os personagens de Arlt. Não só porque caminham numa cidade, lugar do anonimato. Não só porque esta cidade está povoada de indiferenças e imigrantes. Mas também porque esta cidade entranha a desconfiança, esta forma tão alta de alienação e ruptura com o mundo. É ela capaz de azedar o caráter e tornar corruptível qualquer forma de amor. Me imagino quão só deve haver sido aquele que nos narra, tão só quanto nós quando descubrimos a mentira.
Mas este mesmo solitário, o qual nem sequer sabemos o nome, este que perde as ilusões e se espanta ante a maldade de um aleijado, este mesmo homem é capaz de estrangulá-lo.
É capaz de argumentar a seu favor, de fazer-nos rir da maldade.
Quem odeia el jorobadito? Sua maldade é tão disforme, grotesca e escandalosa que provoca o riso, uma simpatia. Sua insolência é tão aguda, que passa a nos divertir, quase não a sofremos.
“Y es que todos llevamos adentro um aburrimiento horrible, uma mala palabra retenida, um golpe que no sabe dónde descargarse y si el Relojero la desencuarna a puntapiés a su mujer, es porque en la noche sucia de su pieza, el alma envasa um dolor que es como desazón de un nervio en un diente podrido (...)”
Aqui tudo é contrário ao dissímulo. Se houver uma verdade, a dele fabrica o excesso como uma lente através da qual se vê o desvio, o equívoco, a mesma falta que nos persegue a todos. Porque o erro é o passo certo, a língua tosca se alimenta e é produzida por aquele que não sabe por onde entrar no mundo letrado. Arlt cultiva o vexame linguístico como arma de destituição literária. A resitência às convenções deste mundo começam na construção de uma língua hiper-corregida, uma língua forçada, uma língua de quem sempre bate com a porta na cara. Tudo que rodeia é inacessível: a biblioteca, o livro, a língua, o dinheiro. A saída é ilícita.
II
“No te diré nunca cómo fui hundiéndome, día tras día, entre los hombres perdidos, ladrones y asesinos y mujeres que tienen la piel del rostro más áspero que cal agrietada”.
Una confesión negada. No y nunca acumulan una negativa que resbala, parecen querer decir todo lo contrario, porque fui hundiéndome y te repito outra vez “Y así, fui hundiéndome día tras día”, “Ahora cada uno de nosotros lleva un recuerdo terrible que es una bazofia de tristeza. Ayer... hoy .. mañana... Hundiéndome día tras día” y otra vez..
La repetición acamala el dolor, lo restaura y lo aleja. De vivir entre "Las fieras", de sufrir, lo único que resiste es una estrella Tacuara, una posibilidad de alegría perdida, el testigo del fracaso y la destinataria de esta confesión tan negada y tan entregada.
“Un tango antiguo nos recuerda un momento carcelario, otros la noche del hallazgo de una mujer, otros un instante terrible de cuando andábamos en la mala.”
Habría outra forma de terminarlo? Esta confesión sin fin, este “contame tu condena, decime tu fracaso”, esta verborragia que sólo la entienden los que cruzaron alguna vez un dolor agudo, una decepción fatal, y hermana a los bandoneones y consuela el que se hunde y tiñe de lucidez nuestra profunda soledad.