Mini-ensaio sobre o azul
Ninguém esgota o azul e seus enigmas.
Murilo Mendes
Minha primeira impressão do Rio foi a intensidade da luz. O olhar, sempre um pouco perturbado pela irradiação exacerbada, dava a todo contorno expressa nitidez, a toda película, viva cor. Profusão do azul que submete qualquer tom a sua completa assunção. Mar, horizonte, céu. Enigma para o contraste, desafio a água-forte.
Mas para mim, diferente de Murilo, não havia no azul tanto mistério. Aqui, aliás, o que me incomodava justamente era a “explicitez” de seus gestos, certo escracho carioca estava intimamente relacionado a sua cromática abertura, a voracidade de seus horizontes. Rio, tão dado em linhas e céus, eu nunca soube acolher bem a gratuidade da tua oferta. É como aquela pessoa muito simpática que você costuma encontrar por aí, nas suas ruas, e que, no oferecimento e abertura exagerada do sorriso, desaponta. A gente não sabe bem o que dizer e, no fundo ou superfície, se pergunta o que lhe traz tão cativa simpatia. Não se demora em se descobrir que tudo é jogo de cena.
Mas sob a luz, talvez a nitidez, alguma perda cromática me inquiete. De um azul muito insistente, dado pela imensidão do céu e sua baia, tua aquarela aquática silenciava muitos ais. Há de se perguntar quando este azul turva, se nele prevalece o claro ou se, por acaso, se deixa encarnizar em marinho. Certamente o azul enigma de Murilo turvava em abissais.
Luz de lá que descolava as coisas do que nelas podia se imaginar concreta e as deixavam soltas, mais leves, "Até a tristeza da gente era mais bela e além disso se via da janela..." Virtudes do solto, colar de pedregulhos, a rolar...